AS CONTRADIÇÕES DE DEUS
(*)
l. A publicação
de Bagagem (l976) provocou alguns
solavancos na poesia brasileira. Mais de um crítico
observou
no "caso" Adélia Prado a superação
de certas atitudes do
Modernismo, indicando o surgimento de uma voz feminina,
a
valorização do interior brasileiro e o tema
da família
burguesa. Outros ressaltaram a exaltação carnal
e as
qualidades específicas de uma poesia cuja dicção
ainda não
se encontrava plenamente identificada na tradição
literária
do Brasil. Essas avaliações não detectaram,
contudo, pelo
menos duas marcas solenes de sua poesia: a memória
e a
religiosidade.
O possível
ineditismo de Adélia Prado, por isso
mesmo, pode ser enganoso por mais de um motivo. Tanto pela
religiosidade algo profana, quanto pelo "despojamento"
da
linguagem, sua poesia bem poderia ser aproximada, por
exemplo, da do autor de "Balada de Santa Maria Egipcíaca",
ou seja, o Manuel Bandeira de versos como
entregou
ao barqueiro
A santidade de sua nudez
e
A matéria
passava
Liberta para sempre da alma extinta
do célebre
"Momento Num Café".
Por outro lado,
e pelo menos nas letras brasileiras, a poesia confessional
de Adélia Prado já fora praticada, tanto no
amor às sinestesias, quanto na crua exposição
do desejo, por Gilka Machado, especialmente em Mulher Nua
(l922) e Meu Glorioso Pecado (l928). Assim, quando A.R.
de Sant'Anna anotou, em prefácio a O Coração
Disparado (l978), ser Adélia Prado "a voz mais
feminima de nossa poesia", "exorcizando a provícia
de suas vergonhas" (1),
mal imaginava correr o risco previsto pelos próprios
versos da poetisa naquele livro:
se o crítico
tiver razão
nunca terei estátua.
................ ("Bitolar")
A religiosidade
de Adélia Prado é que revela a
medida de seu ineditismo. Lembre-se, contudo, que ela não
formula ética alguma - seu compromisso com Deus estando
limitado aos ensinamentos catequéticos e a noções
populares
restritas ao espaço religioso de Minas Gerais. E,
ao
contrário do que ainda se supõe, a mulher
revelada por
Adélia Prado não consagra libertação
alguma - revela, sim, a
mulher provinciana, repetitiva, cuja eroticidade só
se torna
conhecida por resultar de conflitos e paradoxos:
Por prazer
da tristeza eu vivo alegre
como escreveu
em Bagagem, no poema "Atávica", ou
Ó
Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis
do poema "Mulher
Querendo Ser Boa", de Terra de Santa Cruz
(l98l). Na sua poesia, as imagens tradicionais do Deus
antropomorfizado, Pai e Senhor, que se refletem na
idealização do marido, não eliminam
as raízes históricas de
sua "árvore ginecológica".
Sua poesia,
porém, é grande poesia - resgata,
sem exageros, o coloquialismo e o registro oral, e afina
a
arte dificílima de intitular. Sendo o título
quase sempre
uma "conexão" com o texto, integrando-se
a ele, é de fato
marcante observar a relativa falta de alusões a outras
leituras que não as bíblicas. De certo modo,
somando Terra
de Santa Cruz aos seus dois livros mencionados, quase não
é
possível vislumbrar mudanças significativas
ou evoluções na
sua poesia: seus três primeiros livros são
um só. Em O
Coração Disparado, por exemplo, encontram-se
os seus únicos
neologismos - "violoncelírico", "sexofone"
e "inconseguir".
A matriz teológica persiste, sob a célebre
oposição entre o
divino e o humano:
Nós
não somos capazes da verdade.
E, em Terra
de Santa Cruz, repete:
Nada, nada
que é humano é grandioso.
Do mesmo modo,
a poesia erótica originada em
Bagagem
Os moços
bonitos me dóem,
impertinentes como limões novos
atravessa O Coração
Disparado
Meu sexo,
de modo doce, turgindo-se em sapiência
e chega à
Terra de Santa Cruz
Meu coração
bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Esse último
livro, no entanto, revela certa
crise, na qual se misturam a proximidade da velhice e a
perda de algumas certezas religiosas, embora a sucessão
de
livros parecesse indicar uma continuidade monocórdica
que
ameaçou comprometer sua poesia.
O Pelicano (l987),
contudo, dissipa esse temor,
e ingressa na tradição do que melhor produziu
a poesia
cristã brasileira. Além disso, trata-se do
primeiro livro em
que se tornam perceptíveis a ordenação
dos temas e o esforço
em lhes conferir unidade. A começar pelo título,
referência
à ave na qual o cristianismo encarnou a natureza
humilde e
sacrificada do animal que fura o próprio peito para
retirar
comida e alimentar sua prole. O mesmo animal que, conforme
anotou Silesius, "vertia água do coração",
anulando-se para
alimentar o outro, imagem da doação que se
fez símbolo do
Cristo, associando seu martírio à chaga do
coração de onde
escapa o sangue de Deus. Persistem, é claro, a memória
familiar, fonte primordial de sua poesia, e a configuração
de um êxtase que é a um só tempo místico
e erótico:
Sem o corpo
a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a Sua paixão.
...............................................
("A Terceira Via")
Pois sua poesia
é mesmo confessional - a
confissão extrema que "garantirá o paraíso".
É uma poesia de
purgação, buscando perdão para uma
infância erotizada e
culpada.
O Pelicano,
porém, explicita outras qualidades
de seu estilo. A exemplo do "Poema Esquisito",
de Bagagem,
em que chamava pelos pais por meio de longos vocativos,
Adélia Prado confessa no recente "Genesíaco"
que
Os vocativos
são o princípio de toda poesia
- versos com
que acentua a sua arte laudatória. Também
a
epifania - ou seja, a aparição reveladora
- está quase
sempre associada a essa mistura entre o sagrado e o profano,
entre a esterilidadde e a prociação, num jogo
de
ambigüidades:
Comigo é
na pândega
e ou na santidade mais rigorosa.
......................... ("A
Terceira Via")
A mesma epifania
que lhe permite declarar com
júbilo:
Cu é
lindo!
Fazei o que puderes com esta dádiva.
................................ ("Objeto
de Amor")
Encontra-se
nessa ambigüidade, portanto, o
melhor da contribuição de Adélia Prado
para a poesia cristã:
ela não possui o programa rigoroso e quase ortodoxo
de Jorge
de Lima e de uma primeira fase de Murilo Mendes, muito menos
os arroubos messiânicos de Augusto Frederico Schmidt
ou,
longe disso, as ladainhas de Carlos Nejar. O Pelicano traduz
a existência erótica como um sintoma da Criação
e alude à
possibilidade de um "Deus fazendo pantomimas",
que muito
lembra, hereticamente, a moral diderotiana de Le Neveu de
Rameau. Contudo, a instauração cristã
e erótica de O
Pelicano não indica a superação do
antagonismo; antes, e
apenas nisso consiste sua semelhança com Clarice
Lispector,
postula uma condenação frente à ordem
divina, "cuja
perfeição esgota a eternidade":
Tudo está
vedado,
não há lugar para mim,
parece que Deus me bate,
parece que me recusa.
............... ("O Bom
Pastor")
A síntese
dessa interdição do mundo, e
interdição do desejo, constitui as duas últimas
partes do
livro - em que se encontram os melhores poemas, inspirados
pelo amor por um homem de nome Jonathan. Dedicando-lhe
simultaneamente o princípio do bem e do mal, Adélia
Prado
escreve um emocionado cântico dos cânticos,
muito embora
povoando-o de referências a Jesus e aos profetas,
com o que,
aliás estabelece os limites vividos de seus desejos.
A
oscilações entre a culpa e a absolvição
e entre o prazer e a
dor talvez sejam lugares-comuns na literatura cristã
- que
conheceu casos extremos como o de San Juan de la Cruz. Mas
o
erotismo da poesia de Adélia Prado espera destruir
esses
limites. Aquela ave perfura seu próprio corpo para
alimentar
com seu sacrifício a geração seguinte.
Por sua vez, o
sacrifício que se encontra em O Pelicano consiste
em despir
o corpo da mulher para apontar, carnalmente, as contradições
de Deus.
2.
OPUS DEI, MEA CULPA (**)
Ao reunir os
poemas de O Pelicano, Adélia Prado mostrou haver
incorporado uma tradição cristã muito
específica da poesia brasileira. Ao mesmo tempo,
afastava-se um pouco do por vezes excessivo memorialismo,
intensamente confessional, que marcara a primeira fase de
sua poesia. A partir daquele livro, sua religiosidade adensou-se,
assim como sua eroticidade,o que permitiu o surgimetno de
tensões que revelavam os aspectos inusitados de seu
misticismo. Um deles, por exemplo, era representado pela
epifania - a aparição reveladora - "quase
sempre associada a essa mistura entre o sagrado e o profano,
entre a esterilidade e a procriação, num jogo
de ambigüidades" - como se pôde observar
na época. O lançamento de A Faca no Peito
(Rio de Janeiro: Guanabara, l988), por sua vez, confirma
e prolonga a segunda fase de sua poesia, embora seja preciso
admitir: esta já apresenta uma evidente fadiga de
sua meditação religiosa, e o novo livro não
sustenta sequer a surpresa de algumas imagens de poemas
do livro anterior, que parecia ter permitido à Adélia
Prado iniciar uma religio poetae de qualidades muito originais.
Seu novo livro não dissipa a originalidade, mas também
não faz supor que se realize uma poesia de tom elevado;
pelo contrário, em A Faca no Peito repetiram-se à
exaustão alguns temas - como o do indefinível
personagem Jonathan - e deu-se preferência a uma poesia
marcante por seu coloquialismo que acusa, agora, desleixo
e falta de rigor incomparáveis até mesmo ao
evidente espontaneísmo de sua poesia.
Talvez a insistência
em tornar trivial - e
sobretudo irracional - os eventos da existência tenha
levado
Adélia Prado a escrever o poema mais inusitado desse
livro,
"A Formalística", espécie de crítica
irônica à poesia
cerebral, à poesia da faca só lâmina.
Nele, expôs-se de
forma literária o espontaneísmo de sua criação
confrontado
com o racionalismo dos que escrevem com método e
esforço.
Sem dúvida, o que é uma engajada defesa de
sua própria
atitude face à criação literária
não deixou de se apresentar
sob um impagável sarcasmo:
O jovem poeta,
..........fedendo a suicídio
e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
.........."Deus é
impecável."
o que lembra
o famoso "Poetry", de Marianne Moore - poema
que é uma discussão sobre a "antipoesia"
-, com a necessária
advertência de que ambas as poetas tomaram rumos opostos
em
se tratanto de literatura.
Paradoxalmente,
a opção um tanto irracionalista
está impedindo sua poesia de ensaiar (como fez, por
exemplo,
seu invejado Drummond em "Especulações
em Torno da Palavra
Homem") uma inquirição sobre o mistério
mais palpitante da
Criação, o ser de Deus. Ao contrário,
resultou uma poesia em
muito banalizada por um questionamento francamente
artificial, o que alude não só à confessada
espontaneidade,
mas também a certo infantilismo, como se evidencia
em "O
Holocausto" e "O Demônio Tenaz Que Não
Existe":
O peixinhos
ficam na água
...........e não se
afogam!
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É
esquisito ser gente.
Por outro lado,
se não existe propriamente
hermetismo em sua poesia, esta se transformou, a partir
de O
Pelicano, num mosaico de referências a acontecimentos
estritamente pessoais. O personagem Jonathan, que
obsessivamente surge em seus poemas, representa decerto
uma
dimensão a um só tempo terrena e imaginária,
boa e má,
fantasia idealizada por uma moça romântica...
Enfim, ele mal
serve para crivar a divindade de perguntas que se relacionam
à experiência do amor ou do prazer, da devoção
e da heresia.
Seu personagem permanece de tal forma associado à
juvenília,
que falta a ele e a muitos poemas a obrigatória maturidade
para envolver-se com um novo mistério que a conforte.
Muito
mais incisivo e irônico se mostra o poema "Laetitia
Cordis":
Penso em
Giordano Bruno
e em que amante terrível ele seria.
Certamente torna-se
um exagero de leitura
crítica observar que a idéia de uma faca no
peito em muito
se aproxima da principal atividade do pelicano religioso,
a
de furar seu próprio peito para alimentar os filhotes;
mas
não é exagerado reparar que, ao lado do citado
poema
dedicado à arte poética, existe em Adélia
Prado a tentativa
de construir seus poemas com uma nova disposição
dos versos
- o que ainda não produziu qualquer efeito significativo.
De
um modo geral, A Faca no Peito repete a conjunção
do
abstrato com o concreto, do solene com o trivial
Me atordoam
da mesma forma os místicos
e as lojas de roupas com seus preços
e ainda reúne,
num só poema, diversas impressões - fazendo
com que o leitor atue na ordenação de seu
sentido. O livro
não possui, contudo, como parecia anunciado, poesia
de
intensa meditação religiosa, seja de profunda
devoção, como
a de Charles Péguy, ou de índole barroca,
como a de Jorge de
Lima. A religiosidade de Adélia Prado revela aquela
característica freudiana do mal-estar na civilização:
um
certo "desenraizamento" do mundo, uma dificuldade
de
conjugar o eu à sua sociedade, um sentimento de passageira
alienação que pode até mesmo não
servir à discussão mística,
mas que define precisamente a essência de sua vida:
Ainda que tênues,
......desconforto e estranheza
não devem permanecer
............para que eu seja
humana?
Notas
(*) Suplemento
Idéias, Jornal do Brasil, 25.4.l987. Volta
(1)
"Adélia: A Mulher, o Corpo e a Poesia",
in O Coração Disparado (Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, l978), p. l0 e ll. O estudo precursor de ARS
possui ainda a qualidade de sugerir, sutilmente, uma aproximação
entre a autora e Mário de Andrade. Volta
(**)
Suplemento Idéias, Jornal do Brasil, 3.9.l988. Volta