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Conversa entre João e Joaquim *

Na poesia de João Cabral de Melo Neto, nenhum poeta mereceu mais e maiores referências do que Joaquim Cardozo (1897-1978), cuja vida e cuja obra ainda pedem a atenção dos estudos especializados. O poeta de O signo estrelado (1960) parece destinado, um pouco por sua vontade, a uma zona de ambigüidade e equívocos: relembre-se, por exemplo, a decisão de Manuel Bandeira de incluí-lo na primeira edição da Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos (1946), para retirá-lo na seguinte, em 1964. Ironicamente, a presença de Joaquim Cardozo na obra de seu amigo também pernambucano, João Cabral de Melo Neto, está caracterizada por uma freqüência incomum, já que se encontra no início, no meio e no fim da sua carreira literária. No total, são oito poemas somados à dedicatória do longo “O Cão sem Plumas”.

Já em O engenheiro (1945), João Cabral de Melo Neto escreveu em “A Joaquim Cardozo” um elogio que não esconde, apesar da sua contenção, elementos de evocação comovida. O poema menciona a dimensão do tempo, “o tempo marinho e calmo”, que de fato constitui uma obsessão de quem concebeu “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”. Faz referência, também, à profissão de engenheiro-calculista, que aproximou Joaquim Cardozo das formas mais modernas da arquitetura brasileira. Mas, principalmente, localiza

a cidade que não consegues

esquecer

aflorada no mar: Recife,

arrecifes, marés, maresias;1

De modo conciso, encontram-se no poema as “idéias fixas” que firmam a identidade entre os dois poetas, marcada pela experiência da terra natal e pela importância que ambos atribuem a Pernambuco no processo histórico do Brasil.

Em “Pergunta a Joaquim Cardozo”, do livro Museu de tudo (1975), existe mesmo uma sensação de perplexidade sobre a aparente ignorância do país quanto à contribuição específica do estado pernambucano, considerada superior.

É que todo o dar ao Brasil

de Pernambuco há de ser nihil?

Será que o dar de Pernambuco

é suspeitoso porque em tudo

sintam a distância, o pé atrás,

insubserviente, de quem foi mais?2

Esse orgulho provincianismo, esse nacionalismo paroquial e intransigente, embora pacífico, e até mesmo consciente do seu pouco apelo, caracterizam muito do que escreveram os dois poetas. Não se trata de evidenciar a simples coincidência ou semelhança de temas, mas de salientar convicções de diversa natureza, em geral estética e política, que estruturam a obra literária de ambos. Em “A Luz em Joaquim Cardozo”, daquele mesmo livro, a compreensão do poeta homenageado parece restrita aos que conhecem as condicionantes geográficas:

Escrever de Joaquim Cardozo

só pode quem conhece

aquela luz Velásquez

de onde nasceu e de que escreve.

A luz vincula-se à lucidez do poeta, que é

leve como uma rede,

e clara, até quando preside

o cemitério e a sede.3

A essa altura, João Cabral de Melo Neto já havia publicado a série de poemas sobre cemitérios nordestinos, de conteúdo intensamente regional, por sua natureza imbricados com o tema da morte. Sobretudo, escrevera Morte e vida severina (1966), poema no qual todos esses temas, e ainda a seca e a sede, se apresentam num contexto sem esperança ou redenção. Até que a morte atinge por fim o poeta homenageado, o que faz João Cabral de Melo Neto, em “Na Morte de Joaquim Cardozo”, dirigir novas perguntas, dessa vez ao poeta ausente e ao leitor do seu poema, em nota de renovado nacionalismo. O exemplo citado, no caso, é o de James Joyce a criticar a Irlanda, seu país natal, por comer os seus filhos do mesmo modo

como a porca

que as crias melhores devora.4

Joaquim Cardozo, portanto, é essa “cria melhor” que o Brasil ignorou, tendo, por sua vez, ocupado espaço restrito para a compreensão.

Pouco a pouco se percebe que o modelo ideal de Joaquim Cardozo constitui uma imagem especular na qual João Cabral de Melo Neto se vê a si mesmo. Em outras palavras, as qualidades encontradas no autor de O Coronel de Macambira (1963) são aquelas que o poeta pratica e radicaliza em sua poesia, não importando se o assunto é social ou a preocupação é estética. Em “Joaquim Cardozo na Europa”, por exemplo, escreve que

Ele foi um dos recifenses

de menos ondes e onde mais,

que em lisboas, madrids, paris,

andou no Recife, seus cais.5

É extraordinário que, a título de descrever algumas viagens do poeta mais velho, o poema publicado em A Escola das Facas (1980) possa igualmente dizer respeito ao diplomata profundamente marcado por sua cidade, que também conheceu aquelas capitais e “não foi turista ou visitante”, pois

não caminhou guias, programas:

viveu-as de dentro, habitante.

Em alguns poemas e em declarações a jornais, João Cabral de Melo Neto se referiu à dificuldade pessoal de abandonar psicologicamente o seu torrão natal, mesmo quando dele afastado por longos períodos. Outra identidade biográfica entre os poetas relaciona-se à exclusão de Joaquim Cardozo do serviço público, em 1939, por causa do teor de um discurso de paraninfo para uma turma de engenheiros do Recife. Esse fato cria um paralelo involuntário com a expulsão de João Cabral de Melo Neto do Itamaraty, por “atividades subversivas”, para o qual só foi reconduzido tempos depois. Recorde-se ainda que foi o poeta-diplomata quem finalmente conseguiu publicar os poemas de Joaquim Cardozo, isso em 1947, quando completou 50 anos! O que permite reler, em nota irônica, “Um Poema Sempre se Fazendo”, no qual é comentada a impressionante memória de Joaquim Cardozo, capaz de guardar todos os seus poemas sem precisar escrevê-los.

Ele vivia com seu poema

como outros vivem com sua crença: (…)

eis como escrevia, me disse,

o poeta que fez o Recife.

Assim, não deu trabalho aos prelos:

se sequer cuida de escrevê-los! (…)6

Joaquim Cardozo é um herói discreto e silencioso na poesia de João Cabral de Melo Neto. O seu admirador não hesita em classificá-lo de “um novo Frei Caneca”, o que faz do poeta mais velho um revolucionário, quando não um emancipador, sem maior militância na política, mas com marcante influência sobre o escritor do Auto do Frade (1984), que aprendeu a lição e também produziu uma poesia estranha às tendências vigorantes na literatura do Brasil.

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* Jornal do Brasil, caderno Idéias & Livros, 9 de outubro de 2009.

1 João Cabral de Melo Neto, Poesias Completas (Rio de Janeiro: Sabiá, 1968), p.356.

2 João Cabral de Melo Neto, Museu de Tudo (Rio de Janeiro: José Olympio, 1975), p.88

3 Op. cit., p.13.

4 João Cabral de Melo Neto, A Escola das Facas (Rio de Janeiro: José Olympio, 1980), p.59.

5 Op. cit., p.82.

6 João Cabral de Melo Neto, Museu de Tudo e Depois (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988), p.62.

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