LAVOURA
ARCAICA (*)
Trinta anos
de poesia de Marly de Oliveira não
são trinta anos quaisquer: o que se lê, a partir
de Cerco da
Primavera (1958) até O Banquete (1988), é
a poesia
filosofante de uma escritora que não pertence diretamente
a
nenhuma geração literária brasileira,
ao mesmo tempo que
busca inserir-se na grande tradição literária
universal. O
efeito de sua poesia é o de ser pouco contemporânea
e tentar
ser permamente; para esse fim, Marly de Oliveira é
poeta de
preferência simbolista e de vocabulário arcaizante,
com o
qual introduz suas perguntas acerca dos paradoxos e das
perplexidades da experiência humana. O seu relativo
isolamento na literatura brasileira, no entanto, não
é
sintoma de desconhecimento do que nela se fez em poesia:
muito pelo contrário, é evidente que Marly
de Oliveira
conjuga o espiritualismo de Cecília Meireles e o
essencialismo de linhagem cristã tão característico
de
Clarice Lispector, influências que a poeta confessa
várias
vezes:
A condição
humana
é a Paixão de Cristo.
Foi Clarice quem disse:
eu apenas subscrevo.
................ (Retrato,
13)
Os aspectos
simbolistas de sua poesia propiciam o aparecimento de categorias
filosóficas com o inevitável uso de maiúsculas
(o Acaso, o Real, entre outras), mas, ao mesmo tempo, conduzem
alguns poemas ao auge de uma injustificável fixação
por motivos que só fazem parte de poesias muito particulares,
como a de Alphonsus de Guimaraens e suas paisagens medievais.
Em Explicação de Narciso (1960), ocorrem "duendes
luminosos e feridos", "renas silenciosas",
"a ninfa tardia das moradas", ou ainda, mais adiante,
em Contato (1975), "o plúmbeo céu, o
sonho nacarado" e o poema XI, cuja seleção
vocabular é um impedimento mais forte do que os "absconsos
caminhos". Não que seja totalmente intolerável
uma poesia que se caracterize pela excessiva substantivação
dos verbos ou pelo que a poeta nomeia de "forma inquisitiva"
- ou seja, o rol de perguntas de natureza filosófica
que por vezes preenchem todo um poema seu. No prefácio
à sua Obra Poética Reunida (São Paulo:
Massao Ohno, 1989), Antonio Houaiss repara que Incerteza
das Coisas (1982) é "uma tentativa de mudança
de dicção, um embuste de sábio, um
dizer falsamente trivial do antigo dizer poético"
(1), referindo-se à
tentativa que a poeta teria feito de abandonar o seu coerente
itinerário metafísico. Mas, por vezes, tem-se
a impressão de que o embuste é o de natureza
filosófica, como acontece, por exemplo, em muitos
poemas de Invocação de Orfeu (1980), quando
surgem pensamentos mal disfarçados de poemas.
Marly de Oliveira
é poeta conscientemente
antimoderna, ou melhor, amoderna: seu declarado interesse
em
poesia é, numa síntese, a submissão
ao mistério. Tal atitude
se evidencia não só no devotamento ao tempo
idealizado ("o
paraíso é a minha escolha antiga") como
também na diferença
que ela percebe existir ao se defrontar com a máquina
do
mundo, à qual já foram apresentados Camões
e Drummond:
A máquina
do mundo para mim
jamais se abriu e nem eu desdenhara
o que seria oferto em forma rara,
eu que, se posso, sempre digo sim
ao mistério (...)
Os livros culminantes
de Marly de Oliveria são A
Suave Pantera (1962) e O Sangue na Veia (1967). O primeiro
deles é um só e belo poema, meditação
um tanto à William
Blake sobre a negra pantera, em que se interroga sobre a
força, a beleza e a ferocidade do animal, em versos
que
indicam um instante extremamente feliz de sua obra:
Negra ela
rebrilha,
presente a si mesma,
como se invadida
de uma luz avessa.
O segundo livro,
por sua vez, é um conjunto de
sonetos de rimas geralmente toantes, de tema perenemente
amoroso e de dicção camoniana em que Marly
de Oliveira,
curiosamente, afasta-se do espiritualismo de seus demais
livros e festeja, com grande alegria, a carnalidade, como
no
excepcional primeiro soneto:
A carne é
boa, é preciso louvá-la.
A carne é boa, não é triste ou fraca.
O que a atinge é a fraqueza que há num homem,
A tristeza, maior que um homem, mata-a.
Em toda a sua
obra é constante a intertextualidade, as alusões
e mesmo a transcrição integral de versos que,
de alguma forma, se adequam ou se confraternizam à
sua poesia; ou às vezes não, como aconteceu
com Apollinaire, cuja citação, tendo servido
de epígrafe a Retrato, recebe esta crítica
num dos poemas do livro: "Apollinaire não tinha
razão". Poeta da tradição, jamais
da invenção, a ponto de o prefaciador só
observar transgressões à sintaxe em dois momentos
durante todos os trinta anos poéticos, Marly de Oliveira
relembra Murilo Mendes e Manuel Bandeira em muitos de seus
poemas e, fiel à latinidade e à cosa italiana,
Virgílio, Dante e Ungaretti. Mas o que confere coerência
à sua obra poética, possuidora de um tom basicamente
monocórdico, é a existência de um só
tema, que apenas com discrição se expande
e se ramifica em outros temas: o do destino humano em sua
incomunicabilidade e perpétua inquirição
pelo sentido da vida. É notável a influência
de Clarice Lispector em versos que exprimem a mesma perplexidade
da escritora de ficção ("Mesmo ser é
um excesso em que caímos" ou "o essencial
é incomunicável") e alguns pequenos paradoxos
("pois que somos nós mesmos os empecilhos"),
manifestações comuns à ética
cristã ou ao menos religiosa. Quando Henriqueta Lisboa
publicou, em 1929, os poemas de Enternecimento, fundava
uma espécie de confraria a que pertence, por exemplo,
Ivan Junqueira e a própria Marly de Oliveira: ao
evitarem as armadilhas fáceis do neoparnasianismo
da Geração de 45, os dois optaram por uma
poesia meditativa a demonstrar que "o mundo não
se esquiva à inquisição". Deo
gratias.
Notas
(*) Verve,
no. 33, março de 1990. Volta
(1)
"Prefácio", in Obra Poética Reunida,
p. 13. Volta