MINIATURA EM SI MAIOR (*)
Talvez o epigrama,
poema satírico por excelência, não tenha
tradição na literatura escrita do Brasil.
Afora as brincadeiras trocadilhescas de Emílio de
Meneses e de Bastos Tigres, resta muito pouco -e, mesmo
assim, a título de produção esparsa.
Bastou, porém, que apenas um escritor modernista
se interessasse radicalmente pela brevidade poética
em versos de índole humorística para que uma
linhagem de poetas - formada sobretudo nas duas últimas
décadas - surgisse dos veios marginais com suas piadas
e paródias. Oswald de Andrade foi esse escritor modernista,
sobretudo o de Pau Brasil (l925), intervindo sarcasticamente
na história e na língua de seu país.
E o maior herdeiro dessa fortuna mais ou menos maldita é
José Paulo Paes.
Não terá
sido esta, contudo, a impressão de quem leu os seus
livros iniciais, a partir de O Aluno (l947). Naquele instante,
os poemas de Paes estavam marcados pela confessadíssima
dicção poética de Drummond e obedeciam
a aspectos formais então em voga. As intenções
de Paes não pareciam ir além de um romantismo
de origem conjugal. Apenas com a publicação
das Novas Cartas Chilenas (l954) Paes adentra em solo seguro,
exibindo duas de suas grandes características poéticas:
o humor e a revisão crítica da História.
Note-se, ainda aqui, quando sua linguagem já tende
para a maturidade, o persistente projeto modernista de revisitar
os fatos e as datas brasileiras da perspectiva dos vencidos,
numa espécie de carnavalização da realidade.
Por vezes, para evidenciar ainda mais a sua devoção
aos primórdios do Modernismo, há momentos
que figuraram como baluartes da Antropofagia: o poema "L'Affaire
Sardinha", sobre o ato de canibalismo praticado por
nossos índios, é a reedição
de uma pedra de toque.
O decisivo afastamento
dos poemas "retóricos" para a causticidade
do epigrama indica - ao contrário do que poderia
parecer - um adensamento do fazer poético e da atitude
filosófica. Se o poema breve, que tanto circulou
pelos anos 70, e circula ainda pelos nossos 80 com outras
vestes, tem muitas vezes a má qualidade do que em
latim se denomina de ejaculatio praecox, o epigrama de Paes
é uma severa lição de paciência:
não é feito com a substância do momento
repentino, mas com longa reflexão. A brevidade não
tem a equivalência de uma simples indisposição
à escrita - como é de praxe entre os que pregam
o fim do verso -, mas é, enfim, a síntese
e realização máximas da escrita, equacionadas
à maneira de um mínimo múltiplo comum.
Alimentados pela ironia e pelo ceticismo, os poemas de Paes
incorporaram um tônus filosófico muito raro
em nossa poesia, especialmente naquela que se acomoda em
poucos versos, e logo se apossou de temas essenciais à
modernidade: o nada e a anulação. Seus poemas,
por isso, são formas reduzidas e redutoras. Um número
sempre presente em sua obra, o zero, é um símbolo
desse vácuo um tanto existencial: para o poeta, o
zero é
o número
mais fero
e mais vero ("Dicionário de Rimas")
Encastelado
numa citação de Franz Kafka ("contra
piadas não há argumentos"), Paes abre
fogo com seus sarcasmos certeiros. Já em Epigrama
(l958), o verso final de "Poética" define
com precisão seu novo rumo:
Aceito meu
inferno, mas falo de meu céu.
De fato, o verso
tem muitas implicações. e sugere que, embora
arredio às tradições, Paes munca as
desprezou por completo. Seu domínio de formas poéticas
consagradas, como as do soneto, do madrigal e do epitalâmio,
entre outras, é total. Existe aí uma espécie
de volúpia em percorrer as tradições,
aludindo a elas sempre que possível, porém
recusando-as. Mesmo breves, seus poemas acusam o entrelaçamento
de referências de refinado gosto literário;
ao mesmo tempo que dessacraliza algumas mitologias literárias,
o próprio poeta se incumbe de inscrevê-las
no rol de suas preferidas, como uma espécie de antologia
crítica ou de paideuma que zombeteiramente ri de
si mesma. Até Kafka, que conquistara lugar de honra,
não escapou ao seu veneno:
quando lhe
veio à lembrança
que bicho é pai de bicho
o pai de gregório samsa
juntou-se ao filho no lixo ("Metamorfose Dois")
Com Anatomias
(l967), apresenta-se a forma mais bem acabada de sua linguagem
poética. E não é pra menos (ou era):
depois de quase dez anos de elaboração, nesse
livro encontra-se um poeta que passou por turbulências
as mais diversas, do Concretismo à Poesia Práxis,
da poesia engajada ao poema processo. Trazendo em seu corpo
as feridas de todas essas experiências, Anatomias
ressaltam um caráter cosmopolita em sua poesia, que
fez o poeta evitar a filiação a um grupo literário
dos muitos que conheceu e chegou a freqüentar. Peças
antológicas como "Epitáfio Para Um Banqueiro",
o cummingsiano "Or (Aprovo) bis" e o arrasador
"Cronologia"
A.C.
D.C.
W.C.
são insuperáveies
em seu sentimento de descrença. Pois o ceticismo
de Paes é tamanho que nem mesmo os dias finais lhe
parecem adequados:
não
era este o apocalipse que eu esperava ("A Marcha
das Utopias")
A partir desse
livro, seus poemas não se limitarão apenas
às palavras, mas avançarão sobre a
imagem fotográfica e o desenho: embora a "poesia",
no caso, esteja no título - que descentraliza e subverte
a informação, tornando-a cômica -, é
estranho encontrar um Rui Barbosa hermeticamente fechado
em vidro de formol, ou mesmo um belo poema erótico,
como "Epitalâmio".
Ao reunir todos
os seus livros em Um Por Todos (São Paulo: Brasiliense,
l986), esse miniaturista do riso ainda achou necessário
publicar os inéditos de Calendário Perplexo
(l983): promovendo um passeio irônico pelas principais
datas de nossas vidas, Paes transforma a banalidade dos
eventos em amargas advertências, a exemplo de "Dia
do Índio":
o dia dos
que têm
os seus dias contados
A sua poesia
bem poderia passar por uma coleção de epitáfios
- como aquele que comemora o dia de finados:
faz
faz
faz
jaz
Sua poesia inteira,
aliás, parece tender para as formas definitivas:
tem o ar de quem diz as últimas palavras; tenta aproximar-se,
na síntese definitiva, das verdades proverbiais,
embora de um pessimismo epigramático como o de La
Rochefoucauld (ou, para que se perdoe o gosto antigo, de
um Karl Kraus). Manipulando com a palavra em seu resíduo
quase nuclear, a poesia de José Paulo Paes, pela
concisão e pelo conhecimento de técnicas,
é atualmente o exemplo mais notável de um
ultraje a rigor.
Nota
(*)
Jornal do Brasil, 27.4.l986. Volta