O mundanismo,
a boêmia dourada e as diversas atividades dos escritores
não significavam, obviamente, um desregramento visceral
que os incompatibilizaria com sua sociedade: pelo contrário,
era notável o esforço para fundar grêmios
e associações, para congregar a elite econômica
em torno das numerosas conferências literárias
e para importar, sempre que possível, algum vocabulário
francês e atitudes caricatas que passavam por refinamento
europeu da educação. Ainda que Olavo Bilac
tivessee sofrido alguns meses na prisão e se visse
forçado a um exílio doméstico por causa
do confronto menos com a ideologia dos governantes do que
com os interesses pessoais ou de grupo, a imagem perene
do poeta é a de um patriota, de um homem cívico
que fomentou um verdadeiro culto à Pátria
e o levou em peregrinação às escolas
e aos banquetes nos quais se irmanava às autoridades,
sobretudo as militares. Ao morrer, portanto, Olavo Bilac
estava consagradíssimo: seus sonetos há muito
vinham merecendo belas molduras nas revistas lidas pelas
senhoras; seu nome estava retumbantemente ligado a um projeto
nacionalista de que foram exemplos seu longo poema "O
Caçador de Esmeraldas" e seus sonetos sobre
lendas brasileiras. Não se pode ocultar, por isso,
o poeta que muito contribuiu para a profissionalização
do escritor no Brasil - filiando-o também ao Estado.
O escritor Olavo Bilac, que prestigiosamente anunciou o
xarope, dedicando-lhe um soneto que começa com esses
dois versos:
Defende,
Amigo, o teu país. Defende-o
Como defende a sua furna o leão.
era o mesmo que
talvez tivesse percebido um país incurável
por causa da trivialidade e do provincianismo que ele retratou
nos poemas satíricos. Mas o poeta se encontrava,
já próximo da morte, "radicalmente curado"
- como confessou no anúncio.
O selo parnasiano
que Olavo Bilac imprimiu em seus versos divide as opiniões
sobre o valor de seu talento e a perfeição
de sua técnica. Esconjurado pelo Modernismo, sobretudo
o da primeira fase, e reclamado pela Geração
de 45 como amável mestre, o poeta ainda sofre os
golpes daqueles que revelam bem mais certa atitude mental
diante da literatura do que uma convicção
crítica sobre seus poemas. Os mais adoradores e irracionais
chegam mesmo a afirmar que o seu nome completo - Olavo Brás
Martins dos Guimarães Bilac-, um alexandrino perfeitíssimo,
é sintoma de uma predisposição inata
para a arte de versejar... Outros, um pouco mais ignorantes,
reduzem sua obra a um só poema, "Profissão
de Fé", verdadeira ars poetica do Parnasianismo,
transformando-o num estigma de sua arte, e deplorando sua
preferência por mármores, metais e formas frias.
A serena meditação de Mário de Andrade,
num momento especialmente polêmico, vale ainda como
um antídoto contra todas essas expressões
da paixão exacerbada ou do ódio ditado pelas
incompreensão. Num artigo da série "Mestres
do Passado" (1921), nomeando o poeta de "deputado
da Beleza na terra do Brasil" (2),
Mário de Andrade exalta a sua poesia amorosa e erótica,
que conseguiu de todo modo "humanizar" o cultor
da descrição e do detalhe que, em "A
Sesta de Nero", por exemplo, teve a proeza de atenuar
a importância do imperador em detrimento do cenário
em que ele se encontrava
Nero no toro
ebúrneo estende-se indolente...
Gemas em profusão do estrágulo custoso
De ouro bordado vêem-se. O olhar deslumbra, ardente,
Da púrpura da Trácia o brilho esplendoroso.
Mas havia, realmente,
um poeta de forte personalidade que admirava publicamente
o pré-romântico Bocage num de seus livros iniciais,
e já muito famoso lhe dedicaria uma conferência
em que enaltecia o mestre que prezava tanto a sua língua
portuguesa, o amor e o sofrimento. Talvez seja exagero considerar
Olavo Bilac, como fez Ivan Junqueira em sua competente defesa
publicada em O Encantador de Serpentes (1987), um versemaker,
segundo a celebrada hierarquia poundiana (3).
Versemakers eram, a rigor, todos os poetas parnasianos,
e a honra decerto não caberia apenas ao poeta do
póstumo Tarde (1919); mas é verdade que um
poeta como Théophile Gautier se tornou muito considerado
pelo mesmo Erza Pound que tanto fascinou o polemista Mário
Faustino, levando este último a escrever um elogio
do autor de Emaux et Camées (1852), tido por "um
perfeito versejador, o que se afirma sem sombra de pejorativo".
É bem verdade que Faustino foi impiedoso com o parnasianismo
praticado no Brasil, ponderando que muito dos poetas "não
conseguiram passar de românticos bem comportados"
(4), como se lê em Poesia-Experiência
(1977).
O erotismo de
Olavo Bilac, no entanto, era quase sempre delirante. Se
é verdade que pouco acrescentava à fúria
amorosa dos românticos, superava-a justamente por
lhe trazer mais experiência, conferindo-lhe maior
carnalidade. Mesmo em poemas relativos a um passado remoto,
como "A Tentação de Xenócrates"
ou "Satânia", impera uma dimensão
menos idealizada, que impressiona pouco pelo artifício
retórico, como revelam alguns versos do último
poema citado, que reproduz o monólogo da boca de
uma cortesã:
Ardo e suspiro!
Como o dia tarda
Em que meus lábios possam ser beijados,
Mais que beijados: possam ser mordidos.
A cortesã,
a mulher lúbrica e sexual, era uma imagem obsessiva
em sua poesia; significativamente, o amor de Olavo Bilac
pela Pátria brasileira ganhava por vezes acentos
emocionais que se distinguiam precisamente pela presença
de uma eroticidade toda exacerbada. A transformação
da terra nova e descoberta em corpo feminino talvez seja
um topos típico de alguns escritores que vivenciaram
as audácias dos seus navegantes colonizadores. Em
língua portuguesa, Manuel Botelho de Oliveira compôs
uma silva, "À Ilha da Maré", erotizando
a terra fertilíssima de que tanto se ufanou; em língua
inglesa, John Donne saudava a new- found-land como a uma
mulher completamente nua, confundindo terra nova e mulher
virgem. Para Olavo Bilac, o Bandeirante representava o semeador,
o desbravador, o lutador da terra. Seu personagem encontra-se
presente não apenas no tom altissonante de "O
Caçador de Esmeraldas", mas também no
soneto IX da série "As Viagens", intitulado
"O Brasil". Cabe notar que a terra brasileira
(palavra de gênero feminino e semanticamente identificada
à mulher) só se transforma em Brasil (ou seja,
em homem, e, por extensão, em potência) após
a passagem do Bandeirante, que vem disseminar a sua força:
Beija-a!
é a mais bela flor da Natureza inteira!
E farta-te de amor nessa carne cheirosa,Ó desvirginador
da Terra Brasileira!
Não há
dúvida, no entanto, de que essa concepção
histórica refletia um anacronismo saudoso de um poeta
que se comprazia em pertencer a uma aristocracia do espírito,
pouco afeito ao advento da modernidade que transformava
a arquitetura das cidades e chegava mesmo a transformar
o verso, tornando-o mais musical e mais vago, como fizeram
os simbolistas. Ele foi um dos maiores opositores do Simbolismo,
e escreveu mais de uma sátira sobre os poemas novos
e cheios de nebulosidades e crepúsculos. Talvez Olavo
Bilac não considerasse a literatura como uma forma
de ascese, no sentido percebido por Jean-Paul Sartre acerca
da poesia de Mallarmé (5),
ou não tivesse condições de restaurar
intelectualmente uma aristocracia - aquela que existiu nas
grandes civilizações; porém, diante
da gigantesca Nova Iorque, em viagem, lamentava não
encontrar a mesma solenidade, o mesmo apuro bizantino a
que tanto se apegara: a megalópole apagava a "aura"
e acendia um cenário que não lhe fazia sentido,
que a um só tempo flagrava sua predileção
estética e sua despedida do mundo moderno. Em "New
York", pois, escreveu:
Falta-te
o Tempo, - o vago, o religioso aroma
Que se respira no ar de Lutécia e de Roma,
Sempre moço perfume ancião de idades mortas...
O poeta que tanto
cultivava o passado escrevia, ao mesmo tempo, versos satíricos
sobre os acontecimentos mais recentes - sobre as epidemias
que atingiam o Rio de Janeiro, sobre as mudanças
de ministros, sobre as enchentes. Seus sonetos, poemas e
quadras espalhavam-se por praticamente todas as publicações
da época, como o jornal Novidades, ou então
A Rua, Vida Semanária, Gazeta de Notícias
e, mais tarde, a revista A Bruxa - de que foi fundador e
diretor. A intensa colaboração de Olavo Bilac
na imprensa surpreende pela quantidade - quantidade que
ultrapassa a dos poemas publicados em livro. A vida acadêmica
do Brasil ainda não foi capaz de gerar uma só
edição crítica dos livros de Olavo
Bilac, o que é mais grave não só porque
se trata de um escritor exponencial de certa época
literária, como também por ter sido ele um
poeta que corrigia freqüentemente os seus versos. Não
era ainda, quando criticava os costumes ou gozava a sôfrega
sonolência do presidente Arthur Bernardes, o "segundo
Olavo Bilac", que se revelaria ordeiro patriota, conforme
estudo de João do Rio por ocasião da morte
do parnasiano (6).
Por algum tempo, no entanto, especialmente entre 1895 e
1898, Olavo Bilac enchia quase diariamente as páginas
da Gazeta de Notícias com poemas que glosavam desde
uma simples sedução, seguida de estupro, até
piadas sobre a velhice, a impotência e o homossexualismo,
sem esquecer os epitáfios que dedicava aos políticos,
permeados de ironia necrófila. Em l897, quando Alberto
de Oliveira perdeu seu cargo de diretor da Instrução
Pública, por causa da ascensão de Alberto
Torres à Presidência do Rio de Janeiro, Olavo
Bilac juntou-se a Guimarães Passos e os três
escreveram poemas satíricos que seriam mais tarde
reunidos num volume intitulado Lira Acaciana (l900); o sucesso
do gênero era grande, e, antes deste livro, fora editado
em l897, assinado por Puff e Puck, o livro Pimentões.
O primeiro de seus autores era, na verdade, Guimarães
Passos, companheiro satírico de jornal. Um outro
satírico, Pedro Rabelo, editaria As Filhotadas -
casos d'O Filhote, a seção que surgiu a 2
de agosto de l896 para coroar o sucesso dos versos humorísticos
que se espalhavam pelo jornal, a partir de então
reunidos com destaque na primeira página. O editorial
de apresentação não fazia por menos:
O Filhote,
órgão que não tem partido, vem preencher
uma lacuna que há muito se fazia sentir nesta terra
em que os partidos não têm órgão.
A empresa que criou este O Filhote andou a ver se devia
dá-lo em grande formato; resolveu fazê-lo pequeno,
para torcê-lo à feição das circunstâncias;
e, fazendo-o pequeno, teve medo de o deixar andar sozinho
pelas ruas, e então resolveu que ele andaria, por
ora, no colo da mãe. A gente da Gazeta, que é
toda cheia de partes, queria que O Filhote saísse
na última página, como matéria paga;
mas O Filhote alegou que não era filho de preta Mina
e não queria ter de virar de bordo quando chorasse
para mamar. Ficou, pois, assentado que O Filhote sairia
na primeira página, ao alto, encaixado na Gazeta,
como um caso de superfelação. (Nota para o
sr. Malvino, do Liberdade macho: Superfelação
não é nome feio.) E como O Filhote ainda não
teve tempo de reler os livros de Mme. Staffe, é provável
que faça caretas a alguém, coisa desculpável
em crianças, e deixe a língua de fora, mesmo
aos poderes constituídos. Com os quais tenho a honra
de ser - De VV. EEx. atento venerador e criado.
O
PAI DA CRIANÇA
É compreensível
que se encontrem dentre os poemas estampados nos jornais
e revistas, alguns marcados pelo humor senil e até
ingênuo. As anedotas muitas vezes eram previsíveis,
e a obrigação de escrever assiduamente contribuía
ainda mais para a má qualidade de muitas delas. Durante
a passagem do século, porém, aquelas sátiras
tratavam de temas inusitados e, até certo ponto,
reservados; exalavam um anticlericalismo discreto, mas constante;
traziam para o público chacotas sobre os recessos
da vida conjugal e do conflito entre os sexos. A Gazeta
de Notícias divulgava, orgulhosamente, a quantidade
de exemplares diariamente vendidos: 40.000. A população
do Rio de Janeiro se nutria de jornal, ainda mais que este
agregara há algumas poucas décadas um público
feminino que lia com avidez os seus folhetins. No jornal,
as carreiras literárias nasciam ou se enterravam;
a vida jornalística, feita de muita intriga e alguns
ódios, levou Olavo Bilac e Raul Pompéia à
beira de um duelo, que não se consumou apenas em
virtude da intervenção de amigos comuns. Não
era mesmo possível que o poeta de Poesias (l902)
se mantivesse à parte do único meio de divulgação
da atividade literária. Seu estro de versejador e
seu atilado talento de cronista fundiram-se enfim no poeta
satírico. Em 23 de outubro de l896, por exemplo,
publicava-se este "Velho Conto":
No Apolo,
canta-se uma ópera,
Em que há um drama de amor.
A prima-dona está pálida...
Canta aos seus pés o tenor.
Num camarote, o Hermogênio
Diz à mulher: "Que sandeu!
"Perdes tanto tempo em cânticos...
"Ai! que tolo! se fosse eu!
"Se fôssemos nós, se fôssemos
"Eu e tu, meu coração.
"Certo outra coisa faríamos
"Que não cantigas, pois não?
" Porém, com um sorriso irônico,
Ela, abanando-se, diz:
"Sim, pode ser!... mas se o público,
"Marido, pedisse bis?"
Uma nota predominante
das composições satíricas de Olavo
Bilac alude aos incidentes da vida sexual dos recém-casados,
aos casos de adultério, à moral suspeita dos
padres, ao homossexualismo masculino e aos trocadilhos inspirados
nas partes corporais. Por isso mesmo é que no prefácio
a Pimentões seus autores advertiram: "Isto não
é leitura para meninas ingênuas que não
sabem o que é a vida, nem para meninos sem buço
que ainda se dedicam ao saute- mouton e à peteca".
Da parte de Olavo Bilac, pelo menos, o gosto pelo erotismo
desenfreado era evidente já nos livros publicados
com seu nome; e foi Mário de Andrade, numa observação
espetacular sobre a sensualidade do poeta, naquele mesmo
artigo, quem escreveu: "Olavo Bilac foi exímio
na pintura da pornocinematografia. Felizmente poucas páginas
lhe dedicou" (7).
O crítico refere-se, é claro, ao poeta de
"Primavera" - mas de certo modo explica muito
sobre o poeta satírico que, com suas ambigüidades,
antes enfatizava do que atenuava o sexo, explicitando-o
e tornando-o cômico. É o que ocorre, por exemplo,
nesse trecho do poema "Castigo", em que duas mulheres
comentam entre si o casamento de uma amiga com um certo
Gregório, e duvidam do seu sucesso:
Realmente,
que destino
Com franqueza não atino,
Este mundo tem enganos!
Que o Gregório, além de feio,
É um sujeito entrado em anos. (8)
O Príncipe
dos Poetas Brasileiros não reconheceria, com o título
outorgado em l9l3 pela revista Fon-Fon!, os versos sem qualquer
nobreza ou requinte parnasiano que tratavam tão cruamente
da circunstância e do mundanismo. Também não
reconheceria o poeta que adaptava a fábula de La
Fontaine sobre a galinha dos ovos de ouro ao desastre econômico
do Encilhamento; que escrevia uma "Ode ao Bacilo-Vírgula"
com a qual registrava a presença nociva da bactéria
entre os cariocas; que apontava contra os inimigos políticos
as agudas lanças já treinadas pelo antiflorianismo;
que saudava a tromba-d'água que lavava as ruas com
mais eficiência do que a limpeza pública; que
satirizava a mitologia greco-latina e os personagens históriocs
ou bíblicos, enxertando-os na personalidade de algum
ministro ou presidente; que aproveitava as melodias populares
da época para escrever novas letras, mais ao gosto
da atualidade sociopolítica; que se indignava com
o vazio na Câmara dos Deputados e com o bolso cheio
de muitos deles; que, enfim, ao perceber alguma autoridade
acordando de um sono cheio de ócio, se surpreendia:
Aquela pasta
(suspeito)
Não era pasta, era leito...
Acordou! que comoção!
Mas não tenha medo, ó gente!
Porque ele acordou somente
Para pedir demissão! (9)
Ainda não
se escreveu um estudo que resgate a psicologia do escritor
que atravessou a conflitante passagem do Império
para a República brasileira. Sérgio Miceli
escreveu uma interessante análise sobre os anatolianos
- é bom lembrar que o jovem Drummond se considerava
um deles - no opúsculo Poder, Sexo e Letras na República
Velha (l977). A revisão histórica do período,
no entanto, aparece em boas mãos - tendo sido iniciada
com Brito Broca em A Vida Literária no Brasil - l900
(l956), até Cinematógrafo de Letras (l987),
de Flora Süssekind, sem esquecer a interpretação
de Nicolau Sevcenko em Literatura Como Missão (l983).
O grupo desses estudos permite compreender, ao menos, as
sutilezas da vida literária brasileira durante uma
belle-époque tão diversificada que abarcou
os últimos solfejos parnasianos, a angústia
transcendente dos simbolistas, a prosa um tanto positivista
de Euclides da Cunha e as críticas sociais de Lima
Barreto. Na entrada do século XX, a situação
de um escritor como Olavo Bilac parecerá irônica:
o antigo escritor que esbravejara contra o Marechal de Ferro
agora sorria para as forças militares, que imediatamente
endossaram os seus projetos para a lei do serviço
militar e aplaudiram a sua doutrina da defesa nacional.
Surgira, enfim, um escritor pedagogo e moralista - que parecia
ter transferido o rigor da métrica para uma caligrafia
da disciplina. Nunca é demais lembrar o que desse
instante surgiu:
Pátria!
latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e (orvalho! (l0)
Talvez fosse
interessante observar certas tendências nacionalistas
e guerreiras, algumas reacionárias, outras fascistas,
que assombraram poetas diferentes como Bilac, D'Annunzio,
Apollinaire e Ezra Pound. E, ainda, descobrir os acidentados
itinerários da vida literária que muitas vezes
conduziam a um duplo do artista literário. Duplo
que parodiava seus contemporâneos, que conhecia as
mazelas da política, como fez com o célebre
soneto de Luís Guimarães Jr., "Visita
a Casa Paterna", transformado em "Visita ao Tesouro":
Como um'ave
que volta ao ninho antigo,
Depois de fazer muito desaforo,
Eu quis também rever este Tesouro,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio pérfido e inimigo
(Era o espectro do Déficit!) num choro,
Por entre ratos e gambás em coro,
Tomou-me as mãos, e caminhou comigo.
Aqui, outrora... (Oh! se me lembro e quanto!)
Houve muito dinheiro acumulado!
E hoje, papai, nem um vintém... O pranto
Jorrou-me em ondas... Meu Tesouro amado!
Um compadre comia em cada canto,
Comia em cada canto um enconstado! (ll)
O humor é
uma das heranças irrecusáveis que o poeta
parnasiano, o compositor de hinos e o nacionalista que foi
Olavo Bilac nos deixa. Com esta herança, oficialmente
desconhecida, será possível compor o retrato
mais aproximado de um escritor que permanece conhecido apenas
pela suntuosidade do beletrismo; e, no entanto, o poeta
foi um dos que mais engajou a atividade do escritor nas
formas que a imprensa e a publicidade consagravam a um novo
público.
NOTAS
(*)
Suplemento Cultura, O Estado de São Paulo, l7.l2.l988.
Volta
(1)Cf.
J. Galante de Sousa, "Olavo Bilac e Seus Pseudônimos",
in Machado de Assis e Outros Estudos, p. 41-75. Trata-se
do trabalho mais exaustivo e guia mais perfeito para a identificação
dos pseudônimos do poeta. No mesmo volume, também
importante o estudo "Um Livro Chamado Pimentões",
p. 201-210. Volta
(2)
Apud Mário da Silva Brito, História do Modernismo
Brasileiro. 1. Antecedentes da Semana de Arte Moderna (Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978,
5a. edição), p. 284. Volta
(3)
"Bilac: Versemaker", in O Encantador de Serpentes
(Rio de Janeiro: Alhambra, 1987), p. 61-74. Volta
(4)
Poesia-Experiência (São Paulo: Perspectiva,
1977), p. 77 Volta
(5)
Jean-Paul Sartre - Mallarmé. La Lucidité et
sa Face d'Ombre (Paris: Gallimard, 1986), p. 33 e p. 151-168.
Volta
(6)
A idéia do "outro" Olavo Bilac é
comentada por R. Magalhães Júnior, in Olavo
Bilac e Sua Época (Rio de Janeiro: Americana, 1974),
p. 266-277. Volta
(7)
Cf. nota l, p 286. Volta
(8)
Gazeta de Notícias, l6 de março
de l897. Republicado em Pimentões (Rio de Janeiro:
Laemmert & Cia, l897); poema XXXI. Volta
(9)
"Acordou", in Gazeta de Notícias,
20 de novembro de l896. Volta
(l0)
"Pátria", in Poesias (Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, l977, 2a edição), p. 267. Volta
(ll)
Lyra caciana (Rio de Janeiro, l900), p. 2l-22. Volta