Ezra
Pound escreveu que "uma obra de arte vale
quarenta prefácios e tantas outras apologias".
assim, concluí, melhor seria deixar em paz as orelhas
dos bons livros. Mas, temendo que o caro leitor ficasse com
a pulga atrás da orelha, acabei contrariando a lógica
- o que, de certa maneira, me parece natural no caso de um
livro que já começa, pelo título, sugerindo
a idéia de avesso.
Ou Vice-Versa é o livro de estréia de Felipe
Fortuna, e, como tal, está repleto do vigor de descobertas,
marcado pelo impulso de um primeiro tiro, onde certo tom
às vezas jovial traduz a vontade de um enfrentamento
com o mundo e com o fazer poético ("pequenas
rezas não bastam/ para a minha rebeldia"). O
silêncio, presença constante em sua poesia,
é, antes, um emudecimento reflexivo, uma pausa de
respiração: face aos mistérios, o poeta
emudece "como a ferrugem", definindo sua criação
poética como a medida da distância entre palavra
e significado, palavra e vida ("escrevo pela distância
que consigo/ estender, num varal, da palavra/ ao suicídio...").
À beira de uma revelação, de um entendimento
que ora lhe escapa, ora consegue alcançar, sente-se
à margem de um precipício, de onde não
pula porque se redime pela palavra. A ironia, uma característica
da poesia de Felipe, e o uso afinado e sutil de paradoxos
("só consigo inventar o que acredito")
são os traços que imprimem vigor às
suas ambigüidades, e que, mesclados a uma extrema delicadeza
de observação, criam momentos de grande força
lírica. Ou Vice-Versa é um livro que fala
de solidões: a solidão da consciência,
as solidões paralelas da relação a
dois, a solidão no amor. O amor, momento de encontro
de duas solidões, é também quando os
corpos se traem e, mesmo estando lado a lado, parecem feitos
de medo e silêncio. Mas há, também,
a solidão compartilhada - no amor, pelo encontro
amoroso; na literatura, pelo diálogo com outros poetas,
seja por referência direta, ou pela demonstração,
através da técnica, de sua intimidade com
a tradição poética.
Sem cair na estética "rock n' roll" característica
da produção poética da chamada geração
Coca-Cola, Felipe Fortuna revela um rigor formal e uma maturidade
temática decorrentes de um longo convívio
com a palavra. Evitando o superficialismo fácil dos
trocadilhos e outros jogos, Felipe não faz poesia
engraçada - e sim aquela que provoca no leitor um
outro sorriso cáustico. Ou Vice-Versa é a
afirmação de um nascimento. E Felipe Fortuna
tem toda razão ao anunciar: "Essa aurora é
a minha vez".
CLAUDIA ROQUETTE-PINTO
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