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Poesia Brasileira Ltda.*

Fui incluído entre os destinatários de uma mensagem eletrônica que convidava para o lançamento da revista literária Modo de Usar & Co.1 e indicava os propósitos de sua publicação: “A partir de seu nome, a revista aciona um clima de intervenção e propõe uma mudança em certos ângulos e perspectivas, convidando o leitor a observar as escolhas tidas como naturais sob uma outra luz possível.” Reli a frase algumas vezes e por fim concluí que ela fora escrita por um talentoso meteorologista ou astrônomo amador. Afinal, o que é “acionar um clima”? Como poderei “observar as escolhas tidas como naturais sob uma outra luz possível”? E o que tem o nome da revista a ver com isso, se nem sequer explicaram a preferência pela abreviação Co. em língua inglesa, em vez de Cia.?

A apresentação da revista prossegue em tom desmiolado, com o qual se proclama que “os editores da revista ocupam-se com a discussão de possíveis novas formas (…) e noções de objetividade e concretude lidas com a lente do significado das palavras em seu ‘uso na língua’”. A bizarra explicação, como já se percebeu, ignora qualquer arranjo coerente ou gramatical, e prossegue em seu disparate: afirma-se que “a seleção dos textos (…) teve uma avaliação [sic] que procurou medir, antes, sua necessidade para o cenário (…)”. Os editores informam, ainda, que “dentre os trabalhos selecionados, estão poetas brasileiros recentes [sic], unidos a poetas já ativos desde a década anterior” – mas seriam estes últimos também brasileiros, embora todos tenham sido confundidos aos trabalhos selecionados? Por fim, os editores acreditam que “um novo momento histórico traz novas necessidades [sic], às quais os poetas a surgir – e a obra dos poetas mortos – acabam por ter que responder.” Proposta ideal para formar a equipe de colaboradores de uma revista espírita: convidar poetas que ainda não nasceram para se juntarem aos que já se encontram no além.

Tamanha imperícia com o idioma e tanto desapego à lógica preparam mal o leitor de Modo de Usar & Co. Ainda assim, começa-se a leitura com a aspiração de que a insensata apresentação nada tenha a ver com a qualidade dos colaboradores reunidos ali. Os editores são Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck – eles mesmos também poetas e quase todos tradutores, cuja produção se espraia nas páginas da revista. Subitamente, porém, ocorre a observação: como pode a publicação trazer nova proposta se os seus colaboradores são os mesmos que já fazem parte da revista Inimigo Rumor, editada a partir de 1997? A pergunta, no entanto, é superada por outra observação, que diz respeito ao estado atual da poesia brasileira: boa parte dos poetas se compraz num rotineiro processo de endogamia, no qual se alinham e se combinam os membros da mesma tribo.

Está no ar, por exemplo, o site “As Escolhas Afectivas”, organizado pelo poeta argentino-brasileiro Aníbal Cristobo – também presente na revista Modo de Usar & Co. Nele se criou um sistema de indicações pelo qual o poeta mencionado deve mencionar outros poetas, num círculo vicioso e de força centrípeta: é lá que Fabiano Calixto escolhe Ricardo Domeneck (que escolhe Marília Garcia e Angélica Freitas) e Marília Garcia (que escolhe Ricardo Domeneck), cujos afetos se expandem aos nomes dos demais colaboradores da revista. Por sua natureza passional e comunitária, esse sistema poderia ser melhor compreendido com a releitura do capítulo “O Homem Cordial”, de Raízes do Brasil (1936), no qual Sérgio Buarque de Holanda comenta o pacto emotivo no qual o indivíduo se reduz em nome da coletividade, dado o “pavor que ele sente em viver consigo mesmo”.

Esse aspecto gregário, que repele a voz individual e se fundamenta na informalidade, seria apenas uma anotação sociológica se não apresentasse fundas repercussões na obra literária: em Modo de Usar & Co., desdobra-se a cumplicidade não somente nas dedicatórias, mas também na falta geral de surpresa com a originalidade de um poeta ou com a visão crítica sobre, por exemplo, a poesia de Sebastião Uchoa Leite. Num ensaio justamente intitulado “A Poesia Pode Interessar?”, que causou forte debate a partir de sua publicação, em 1991, o crítico norte-americano Dana Gioia examina o isolamento dos poetas, condenados a lerem a si mesmos e a não criarem novos leitores, ao mesmo tempo em que organizam revistas e antologias sob o critério do oportunismo grupal. Na sua percepção, muitas dessas iniciativas “dão a impressão de que a qualidade literária é um conceito que nem o editor nem o leitor devem levar muito a sério.”2 As conexões entre resenhistas e poetas, bem como a criação de uma linguagem própria ao inner circle têm contribuído para a falta de prestígio da poesia na cena cultural.

Para cada um dos poetas reunidos em Modo de Usar & Co., e estimulado pelo inesquecível editorial da revista, poderia ser formulada a pergunta de Carlos Drummond de Andrade em famoso poema: “Trouxeste a chave?” O utensílio não estaria com o Fabiano Calixto do poema “Animal Boy” – no qual menciona o poeta Aníbal Cristobo – e seus versos de extenso prosaísmo como:

no Brasil, os deputados se reuniam

para dividir a pizza da corrupção que assola o país

quando ouviram a maléfica notícia

os ratos

resolveram abrir uma CPI para

verificar os fatos. (p.47)

Muito menos na tradução equivocada de uma canção de John Lennon e Paul McCartney, “Na Minha Vida”, feita por Rodrigo Ponts, o mesmo poeta que na revista inicia o poema “Odelegia à Quimioterapia” assim:

o céu era todo azul

azul de céu quase-amarelo

nem uma nuvenzinha

sujava a planura da cor

: só mesmo a luz planava. (p.152)

Lucidamente (já que o editorial mencionava “uma outra luz possível”), ao menos o poeta Manoel Ricardo de Lima, em entrevista a Modo de Usar & Co., põe em dúvida a existência de “poetas jovens com voz forte” que estão “questionando as estruturas”, assim como a “cartografia simplória que vai desde certas antologias (…) até a sugestão do cânone” (p.95). Ele tem razão: a ação entre amigos se esgota em si mesma e nas suas simplificações e provincianismos. E todo o resto é literatura.

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Jornal do Brasil, suplemento Idéias & Livros, 19 de janeiro de 2008.

1 Rio de Janeiro: Berinjela, 2007, 204 p. As citações dos trechos da revista se referem a esta edição.

2 Dana Gioia, “Can Poetry Matter?”, The Atlantic Monthly, May 1991. A repercussão do artigo permitiu que o crítico expandisse sua percepção sobre a importância minguante da poesia no livro Can poetry matter? – Essays on Poetry and American Culture (Saint Paul: Graywolf Press, 1992).

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