| JOÃO
CABRAL DE MELO NETO: PERFIL DA OBRA
para Sara Brandellero
Para a apresentação da poesia de João
Cabral de Melo Neto (1920-1999), serve de guia uma abrupta
declaração de Jorge Luís Borges, como
sempre apresentada de maneira surpreendente e paradoxal: “Por
lo demás, la literatura no es otra cosa que un sueño
dirigido.” No caso do poeta brasileiro, percebe-se um
processo combinatório em que o onirismo, presente no
primeiro livro, Pedra do Sono (1942), pela via do surrealismo,
se ajusta gradualmente às exigências de uma poética
que busca o autocontrole e o apreço pela forma. Nos
livros maduros, a exemplo de Quaderna (1960), o poeta demonstra
severo domínio da técnica, como se estrangulasse
a inspiração e a espontaneidade, e apresenta
ao leitor poemas que têm o aspecto de objetos perfeitos,
em si e no seu conjunto. Surgiu, assim, no âmago mesmo
da tradição poética brasileira, tendente
ao barroco e à eloqüência lírica,
uma obra de elaborado rigor e de contenção.
O “sueño dirigido” que o poeta persegue
encontra sua expressão culminante em poemas como “Psicologia
da Composição”, “Fábula de
Anfion” e “Antiode”, nos quais se elabora
uma crítica em relação à própria
poesia, com denúncias contra o excesso metafísico,
a metáfora fácil, a incontinência verbal.
Dessacralizador, João Cabral de Melo Neto deu início
a um alto questionamento sobre o que pode ser, nos tempos
atuais, a atitude poética.
Mas nem o tônus surrealista, que caracterizou seu primeiro
livro, nem o rigor conceitual e construtivista, passa a marcar
a produção de João Cabral de Melo Neto
a partir de O Engenheiro (1945), se ajustavam ao momento literário
brasileiro. A obra do poeta, analisada no contexto histórico,
é uma contribuição original e inovadora
à dos numerosos poetas que formavam a Geração
de 45. Lamentavelmente, muitas vezes foram tentados esforços
de interpretação crítica que insistiram
na filiação literária do poeta àquele
grupo, de fato preocupado com a forma, com o equilíbrio
e com a disciplina verbal. A matriz ideológica da Geração
de 45 parece ser o apelo à maturidade contido no ensaio
“A Poesia em 1930”, bem como a avaliação
derradeira, e algo sombria, que Mário de Andrade (1893-1945)
apresentou na palestra “O Movimento Modernista”.
Nesta última, o escritor paulista comenta “a
liberdade da pesquisa estética” e “a estabilização
de uma consciência criadora nacional”, duas conquistas
essenciais do movimento artístico de que se tornou
um dos principais representantes, a partir de 1922. Mas a
sua lucidez também denuncia a existência de um
“hiperindividualismo implacável” que o
teria alienado de uma consciência político-social.
Os meses finais da II Guerra Mundial haviam aprofundado a
revisão do mestre modernista sobre o significado de
sua obra de poeta, crítico e folclorista. E os poetas
da Geração de 45 já combatiam aquela
esplêndida liberdade trazida pelo verso livre, dando
início, assim, a uma fase de agudo esteticismo na poesia.
O formalismo técnico e alguns atributos retóricos
eram a resposta, marcadamente artesanal, à possível
irresponsabilidade dos poetas modernistas, muitos dos quais
acostumados ao poema-piada ou à ênfase nos aspectos
exóticos e regionais da cultura brasileira. Ao criticarem
as facilidades trazidas pela revolução modernista,
os poetas da Geração de 45 não queriam
restaurar apenas a forma, mas também o assunto da poesia,
classicizando-o, tornando-o mais elevado e culto, vinculando-o
a um vocabulário de tendências espiritualistas
e filosofantes. Daí que muitos críticos tenham
preferido termos como neoclassicismo, neoparnasianismo e antimodernismo
para definir um movimento retrógrado de reação.
Em João Cabral de Melo Neto surgem evidentes a preocupação
com a forma do poema, com a contenção e metrificação
do verso, e mesmo com o intelectualismo. Porém, um
elemento desencadeia o seu afastamento definitivo do ideário
da Geração de 45: a crítica implícita
à idéia de uma essência da poesia. A leitura
que o poeta pernambucano faz do Modernismo não é
de rejeição do regionalismo, mas de celebração
dos seus traços peculiares de alcance universal. A
sua obsessão pela forma não é de natureza
conservadora ou de impulso restaurador da ordem, mas de apreensão
intelectual das unidades da palavra, do verso e da estrofe,
como se o poeta estivesse construindo o seu poema na forma
de um conjunto visual. Mais importante, será permanente
a “crítica da razão poética”
em sua obra, quase uma metapoética realizada à
base de imagens obsessivas e “idéias fixas”,
que questionam de modo radical os elementos constitutivos
da poesia, como, por exemplo, a metáfora e o eu lírico.
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